Pensamentos e emoções

Por que alguns pensamentos voltam de novo e de novo?

Alguns pensamentos aparecem e passam. Outros parecem encontrar um caminho de volta. Pode ser uma preocupação, uma lembrança desagradável, uma dúvida ou uma pergunta que você já tentou responder várias vezes. O assunto muda, o dia continua, mas em algum momento ele reaparece.

“Por que continuo pensando nisso?”

Pensamentos repetitivos podem acontecer por muitos motivos e não indicam, sozinhos, um transtorno psicológico. Às vezes, estamos tentando compreender algo importante. Em outras, a repetição continua mesmo depois de ter deixado de produzir alguma informação útil. A diferença entre essas duas situações nem sempre é fácil de perceber.

Por que alguns pensamentos parecem não terminar?

Em geral, é mais fácil deixar um assunto de lado quando sentimos que ele foi suficientemente resolvido. Se existe uma decisão a tomar, uma conversa pendente ou alguma informação que ainda precisamos descobrir, faz sentido continuar pensando. Mas nem toda questão oferece esse tipo de conclusão. Talvez você esteja tentando entender por que alguém agiu de determinada maneira ou queira saber se tomou uma decisão certa, ou ainda, se poderia ter evitado algo que aconteceu.

Nessas situações, pode permanecer a impressão de que ainda existe uma explicação melhor a ser encontrada. Entretanto, algumas perguntas permitem inúmeras respostas possíveis e nenhuma delas produz a sensação de encerramento esperada.

Repetir um pensamento não é necessariamente ruminar

Na psicologia, ruminação é um dos nomes usados para determinados tipos de pensamento repetitivo. Susan Nolen-Hoeksema tornou o conceito especialmente conhecido ao estudar pessoas que permaneciam concentradas no próprio sofrimento, tentando compreender suas causas e consequências sem necessariamente avançar para uma solução. Mas voltar várias vezes a um assunto não é, por definição, ruim. Edward Watkins mostrou que pensamentos repetitivos podem ter funções bastante diferentes. Em algumas circunstâncias, ajudam a elaborar experiências, planejar ou resolver problemas. Em outras, tornam-se abstratos e pouco produtivos.

A repetição, portanto, não é o único critério. Uma questão mais útil é perceber o que acontece cada vez que você volta ao assunto. Você entende algo novo? Consegue tomar alguma decisão? Ou apenas encontra outra forma de formular a mesma dúvida? Na linguagem cotidiana, é comum chamar tudo isso de “pensar demais”. Na psicologia, preocupação e ruminação costumam ser diferenciadas, embora tenham bastante em comum. A preocupação tende a se voltar mais para aquilo que pode acontecer:

“E se der errado?”

“E se eu não conseguir?”

Já a ruminação costuma permanecer mais ligada ao sofrimento atual ou a acontecimentos passados:

“Por que isso aconteceu?”

“Por que eu fiquei assim?”

Essa separação não é absoluta. Podemos começar pensando sobre algo que aconteceu ontem e terminar preocupados com aquilo que pode acontecer amanhã. Por isso, pesquisadores também utilizam a expressão pensamento negativo repetitivo para estudar características que aparecem tanto na preocupação quanto na ruminação. Esse processo está associado a diferentes problemas de ansiedade e humor e não pertence exclusivamente a um diagnóstico.

Para quem está vivendo a experiência, talvez seja menos importante decidir o nome exato e mais útil perceber se o pensamento está produzindo compreensão ou simplesmente mantendo a mesma questão ativa.

Quando pensar mais não produz uma resposta

Porque pensar bastante sobre algo não garante que a resposta procurada exista. Imagine a pergunta:

“Por que essa pessoa fez isso comigo?”

Talvez existam explicações plausíveis. Mas, se apenas a outra pessoa conhece plenamente seus motivos, nenhuma quantidade de análise conseguirá produzir certeza completa. O mesmo acontece com perguntas como:

“E se eu tivesse feito diferente?”

“Será que escolhi certo?”

“Como posso ter certeza de que isso não vai acontecer de novo?”

Elas podem ser importantes, mas possuem um limite. Quando esse limite não é reconhecido, continuamos tentando resolver mentalmente uma questão que talvez não possa ser encerrada daquela maneira. Existe outra diferença importante entre refletir e ficar preso num pensamento. Quanto mais concreta a pergunta, maior a chance de encontrar alguma ação.

“Eu me atrasei para esse compromisso. O que preciso organizar para evitar isso na próxima vez?”

Já uma pergunta como:

“Por que eu sou sempre assim?”

é muito mais difícil de responder. Ela não aponta para um comportamento específico, mistura diferentes experiências e facilmente leva a outras avaliações sobre si mesmo. Watkins observou justamente que formas mais abstratas de pensamento repetitivo tendem a estar associadas a consequências menos construtivas do que formas mais concretas e situadas. Isso não significa que perguntas amplas sejam sempre ruins. Mas quando uma reflexão parece interminável, é importante perceber se ela ainda está ligada a algo que realmente pode ser compreendido ou modificado.

Quando os pensamentos repetitivos começam a pesar

Podem, especialmente quando se tornam persistentes. Watkins e Roberts encontraram evidências de que a ruminação pode prolongar estados emocionais negativos e interferir na resolução de problemas e no comportamento. Isso ajuda a explicar por que alguém pode começar pensando para se sentir melhor e terminar ainda mais angustiado. Quanto mais tempo permanecemos numa pergunta sem resposta, maior pode se tornar a sensação de que existe realmente algo grave ou importante ali.

O próprio desconforto passa a servir como sinal de que precisamos continuar pensando.

Quando vale a pena procurar ajuda?

Pensamentos repetitivos merecem mais atenção quando passam a ocupar muito tempo ou interferir com frequência no sono, no trabalho, nas relações ou na capacidade de se concentrar em outras atividades. Também vale observar quando eles estão ligados a sofrimento intenso ou quando a pessoa sente que não consegue interromper determinadas sequências de pensamento mesmo percebendo que elas não estão ajudando. Na psicoterapia, é possível examinar o que costuma iniciar esses ciclos e, principalmente, o que faz com que continuem.

Dentro da Terapia Cognitivo-Comportamental, isso pode envolver aprender a diferenciar problemas que pedem uma ação concreta daqueles que estão sendo mantidos por busca de certeza, preocupação ou análise excessiva. O objetivo não é impedir que um pensamento volte. Às vezes, ele voltará. A mudança está em não precisar começar toda a conversa novamente cada vez que isso acontece.

Referências

  1. Watkins, E. R. (2008). Constructive and unconstructive repetitive thought. Psychological Bulletin, 134(2), 163–206. doi:10.1037/0033-2909.134.2.163.
  2. McEvoy, P. M., Watson, H., Watkins, E. R., & Nathan, P. (2013). The relationship between worry, rumination, and comorbidity: Evidence for repetitive negative thinking as a transdiagnostic construct. Journal of Affective Disorders, 151(1), 313–320. doi:10.1016/j.jad.2013.06.014.
  3. Watkins, E. R., & Roberts, H. (2020). Reflecting on rumination: Consequences, causes, mechanisms and treatment of rumination. Behaviour Research and Therapy, 127, 103573. doi:10.1016/j.brat.2020.103573.

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