Quando os pensamentos ficam intensos demais, pode surgir uma dúvida assustadora:
“E se eu estiver perdendo o controle da minha mente?”
Às vezes isso aparece depois de horas pensando no mesmo assunto. Em outros momentos, durante uma crise de ansiedade, uma noite mal dormida ou um período de muito estresse. A sensação pode ser forte o suficiente para fazer a própria atividade mental parecer perigosa. Mas pensar demais, por si só, não significa que alguém esteja “enlouquecendo”.
A questão mais importante é entender por que determinados pensamentos, sensações ou dificuldades momentâneas começam a ser interpretados como sinais de perda de controle.
Quando a própria mente começa a parecer ameaçadora
A ansiedade não aparece apenas diante de acontecimentos externos. Também podemos ficar ansiosos com aquilo que acontece dentro de nós. Uma palpitação pode ser interpretada como sinal de um problema cardíaco. Uma sensação de tontura pode produzir medo de desmaiar. Da mesma forma, uma dificuldade momentânea para se concentrar pode virar:
“Minha mente não está funcionando direito.”
Uma sensação de estranheza pode se transformar em:
“Estou perdendo contato com a realidade.”
E uma sequência intensa de pensamentos pode levar à ideia de que, se aquilo continuar, em algum momento haverá uma perda completa de controle. Na psicologia, existe um conceito chamado sensibilidade à ansiedade, que descreve justamente o medo das próprias sensações de ansiedade por acreditar que elas terão consequências perigosas. Uma de suas dimensões envolve preocupações cognitivas, entre elas medo de perder o controle dos pensamentos.
Isso ajuda a entender por que a experiência de ansiedade pode provocar uma segunda ansiedade: além de estar preocupado com alguma coisa, a pessoa começa a ficar preocupada com o fato de estar se sentindo daquele jeito. Essa expressão pode significar coisas muito diferentes. Para alguém, pode ser o medo de não conseguir interromper os próprios pensamentos. Para outra pessoa, significa dizer ou fazer algo involuntariamente. Há quem tema entrar em pânico, não conseguir raciocinar ou simplesmente não conseguir voltar ao estado mental habitual.
Adam Radomsky chama atenção justamente para o medo de perder o controle como um processo relevante em diferentes dificuldades psicológicas. Ele aparece associado a problemas como pânico, ansiedade social e sintomas obsessivo-compulsivos, mas não pertence exclusivamente a nenhum deles. Por isso, sentir esse medo não permite concluir, sozinho, que exista um transtorno específico. O que frequentemente acontece é que a pessoa começa a observar a própria mente de maneira muito próxima.
“Estou pensando normalmente?”
“Por que estou me sentindo assim?”
“E se isso piorar?”
Quanto mais importante se torna ter certeza de que tudo está sob controle, mais qualquer pequena alteração pode ganhar atenção.
Ansiedade pode mudar a forma como interpretamos o que acontece na mente
Cansaço, estresse e ansiedade interferem na atenção e na memória. Podemos esquecer uma palavra, perder o fio de uma conversa ou ter dificuldade de nos concentrar numa leitura. Em períodos de muita ativação, os pensamentos também podem parecer mais rápidos e difíceis de organizar. Nenhuma dessas experiências é particularmente agradável. Mas existe uma diferença entre perceber que algo aconteceu e concluir imediatamente que aquilo é sinal de uma deterioração mental.
Imagine alguém que perde o raciocínio no meio de uma conversa. Uma interpretação possível é:
“Estou cansado e me distraí.”
Outra é:
“Minha cabeça está parando de funcionar.”
O acontecimento é o mesmo. O significado atribuído a ele muda bastante a reação emocional. Esse tipo de interpretação catastrófica é importante na ansiedade porque sensações comuns passam a funcionar como evidências de uma ameaça muito maior. A mente produz conteúdos que não escolhemos deliberadamente: ideias absurdas, imagens desagradáveis, lembranças inoportunas ou pensamentos que não combinam com aquilo que queremos fazer.
A presença de um pensamento não significa que você concorda com ele, deseja realizá-lo ou perdeu a capacidade de avaliar o que está acontecendo. Esse ponto é especialmente importante quando a pessoa começa a examinar um pensamento apenas porque ficou assustada com o fato de tê-lo tido.
“Por que pensei isso?”
“O que isso diz sobre mim?”
“Uma pessoa normal pensaria uma coisa dessas?”
O pensamento inicial pode durar alguns segundos. A investigação sobre o que ele significa pode durar muito mais. Não é necessário discutir aqui todas as diferenças entre pensamentos intrusivos, obsessões e ruminação. O mais importante é lembrar que conteúdos mentais involuntários fazem parte da experiência humana e precisam ser entendidos dentro de um contexto muito maior antes de qualquer conclusão clínica.
Tentar controlar todos os pensamentos pode aumentar o problema
Quando alguém passa a temer a própria mente, é bastante natural tentar controlá-la. A pessoa pode começar a conferir se determinado pensamento ainda está presente, tentar afastá-lo assim que aparece ou verificar repetidamente se voltou ao “normal”. O problema é que tentar não pensar em alguma coisa exige, de certo modo, continuar procurando por ela. Pesquisas sobre supressão de pensamentos encontraram um pequeno a moderado efeito de rebote: depois de tentativas deliberadas de afastar um pensamento, ele pode reaparecer com maior frequência em algumas condições.
Isso não significa que todo esforço para mudar o foco seja prejudicial, significa apenas que transformar a presença de determinado pensamento numa ameaça que precisa ser eliminada imediatamente aumenta a vigilância sobre ele. Quando o medo central é “será que estou perdendo o controle?”, ficar examinando a mente continuamente pode acabar mantendo a própria dúvida.
Quando o medo de perder o controle passa a ocupar espaço
Ter medo de perder o controle é uma experiência conhecida em quadros de ansiedade, mas uma avaliação psicológica ou psiquiátrica considera muito mais do que uma única preocupação. O importante é não usar o medo como prova automática daquilo que está sendo temido. Uma pessoa pode sentir intensamente que algo grave está acontecendo e, ainda assim, a interpretação não corresponder ao que de fato está ocorrendo. Por outro lado, mudanças persistentes ou importantes no funcionamento, no comportamento ou na percepção da realidade merecem avaliação profissional.
O problema costuma ficar mais evidente quando grande parte da atenção passa a ser usada para monitorar o próprio estado mental. A pessoa pode conferir repetidamente se consegue pensar direito, procurar garantias com outras pessoas ou pesquisar sintomas na tentativa de descobrir se está “ficando louca”. O alívio dessas verificações costuma durar pouco e logo surge uma nova sensação ou uma nova dúvida. Nesse ponto, o medo da perda de controle já não aparece apenas durante momentos de ansiedade. Ele passa a organizar a maneira como a pessoa presta atenção em si mesma.
O que pode ser trabalhado em psicoterapia?
Quando esse medo está relacionado à ansiedade, a psicoterapia pode ajudar a examinar o significado atribuído às próprias experiências internas. Na Terapia Cognitivo-Comportamental, pode ser importante identificar quais sensações ou pensamentos são interpretados como perigosos, que previsões aparecem a partir deles e como a pessoa tenta recuperar a sensação de segurança. Também pode ser necessário reduzir monitoramentos e verificações que parecem proteger no curto prazo, mas mantêm a preocupação no longo prazo. O objetivo não é convencer alguém de que nunca terá pensamentos estranhos, lapsos de atenção ou momentos de forte ansiedade.
A mudança está em deixar de tratá-las automaticamente como sinais de que a mente está prestes a sair de controle.
Referências
- Radomsky, A. S. (2022). The fear of losing control. Journal of Behavior Therapy and Experimental Psychiatry, 77, 101768. doi:10.1016/j.jbtep.2022.101768.
- Wheaton, M. G., Deacon, B. J., McGrath, P. B., Berman, N. C., & Abramowitz, J. S. (2012). Dimensions of anxiety sensitivity in the anxiety disorders: Evaluation of the ASI-3. Journal of Anxiety Disorders, 26(3), 401–408. doi:10.1016/j.janxdis.2012.01.002.
- Abramowitz, J. S., Tolin, D. F., & Street, G. P. (2001). Paradoxical effects of thought suppression: A meta-analysis of controlled studies. Clinical Psychology Review, 21(5), 683–703. doi:10.1016/S0272-7358(00)00057-X.