Pensamentos e emoções

Quando nada parece bom o bastante: entendendo o perfeccionismo

Querer fazer alguma coisa bem não é um problema. Você pode gostar de entregar um bom trabalho, estudar com cuidado ou dedicar bastante tempo a algo que considera importante. Ter padrões elevados, por si só, não define perfeccionismo. A dificuldade aparece quando esses padrões deixam de orientar o que fazemos e passam a determinar como avaliamos a nós mesmos.

Nesse ponto, não basta querer fazer bem. Errar pode parecer sinal de incompetência, um resultado bom parece insuficiente e terminar uma tarefa se torna difícil porque sempre existe alguma coisa que poderia ser melhor.

Ter padrões altos não é a mesma coisa que ser perfeccionista

A pesquisa sobre perfeccionismo mostra há décadas que o fenômeno é mais complexo do que simplesmente “querer tudo perfeito”. Randy Frost e colaboradores identificaram diferentes dimensões relacionadas ao perfeccionismo, entre elas padrões pessoais elevados, preocupação com erros e dúvida sobre a qualidade das próprias ações. Algumas dessas características se relacionam mais ao sofrimento psicológico do que outras. Isso ajuda a explicar por que duas pessoas podem ser igualmente exigentes e viver essa exigência de maneiras muito diferentes.

Uma delas estabelece metas altas, trabalha para alcançá-las e consegue reconhecer quando fez um bom trabalho. A outra alcança a mesma meta e imediatamente encontra aquilo que faltou. A diferença não está apenas na altura da régua, mas no que acontece quando o resultado é comparado com ela.

Quando o desempenho começa a dizer quem você é

No modelo cognitivo-comportamental proposto por Roz Shafran e colaboradores, uma característica importante do perfeccionismo é a dependência excessiva da autoavaliação em relação ao desempenho. Em termos mais simples, fazer algo bem deixa de ser apenas desejável e passa a ser necessário para confirmar que você é competente, responsável ou capaz. É por isso que um erro pequeno pode adquirir um significado muito maior do que seu efeito real. Uma falha num trabalho pode rapidamente se transformar em:

“Como não percebi isso?”

“Eu deveria ter feito melhor.”

“Talvez eu não seja tão competente quanto pensam.”

O problema já não está apenas no erro. Ele começa a dizer alguma coisa sobre a pessoa que errou. Quando isso acontece, tarefas comuns podem ficar carregadas de um peso desproporcional. Uma apresentação não é apenas uma apresentação; pode parecer uma oportunidade de provar competência. Uma crítica não aponta apenas algo que poderia melhorar; pode soar como confirmação de uma inadequação mais ampla.

Quando nunca parece suficiente

Esse peso também ajuda a entender comportamentos aparentemente contraditórios. Algumas pessoas perfeccionistas revisam demais, gastam muito tempo em detalhes ou têm dificuldade de considerar uma tarefa concluída. Outras procrastinam e demoram para começar. À primeira vista, procrastinação e perfeccionismo parecem opostos. Mas podem surgir do mesmo problema. Se uma tarefa precisa ficar muito boa para que você se sinta seguro com o resultado, começar significa entrar em contato com a possibilidade de não conseguir atingir esse padrão.

Da mesma forma, terminar significa aceitar que o resultado final terá limites. Por isso, alguém pode passar muito tempo preparando-se antes de começar ou continuar revisando depois que as mudanças já se tornaram pequenas. Não é necessariamente falta de disciplina nem simples preocupação com qualidade. Às vezes, existe dificuldade em tolerar a possibilidade de entregar algo que poderia ter sido melhor. A tarefa vai deixando de ser avaliada apenas pelo que ela exige e passa a ser avaliada pela quantidade de risco pessoal que parece carregar.

Porque o próprio padrão pode se mover. Termina-se algo que considerava difícil e, em vez de reconhecer o resultado, pensa que talvez não fosse tão difícil assim ou recebe um elogio e lembra imediatamente do que poderia ter melhorado. Alcança uma meta e logo estabelece outra um pouco mais exigente. No modelo de Shafran, esse movimento ajuda a manter o perfeccionismo: quando o padrão não é alcançado, surge autocrítica; quando é alcançado, o sucesso pode ser desvalorizado ou o padrão elevado novamente.

Assim, o resultado positivo raramente encerra a avaliação. É possível fazer muitas coisas bem e continuar com a sensação de que ainda não demonstrou suficientemente que é capaz.

Perfeccionismo não é um diagnóstico — e não tem uma origem única

Perfeccionismo não constitui, por si só, um transtorno psicológico. Ainda assim, algumas de suas dimensões aparecem associadas a diferentes formas de sofrimento. Karina Limburg e colaboradores encontraram relações entre aspectos do perfeccionismo e sintomas de depressão, ansiedade, transtornos alimentares e dificuldades obsessivo-compulsivas. As associações foram particularmente fortes para aquilo que os pesquisadores chamam de preocupações perfeccionistas: medo de errar, dúvida sobre o desempenho e avaliações negativas diante da discrepância entre o que foi feito e aquilo que era esperado.

Isso não significa que perfeccionismo cause necessariamente esses problemas. Mas ajuda a mostrar que existe uma diferença entre gostar de fazer as coisas bem e viver permanentemente sob a sensação de estar aquém. Não existe uma única resposta. Algumas pessoas cresceram em ambientes nos quais desempenho recebia bastante atenção. Outras tiveram experiências em que errar significava crítica, constrangimento ou perda de reconhecimento. Para algumas, ser muito competente pode ter se tornado uma maneira importante de conquistar segurança ou aprovação.

O importante é compreender o que a exigência passou a significar para aquela pessoa. Se um resultado abaixo do esperado é apenas frustrante, há espaço para aprender e continuar; se ele ameaça a forma como a pessoa se percebe, a tarefa se torna muito mais difícil de colocar em perspectiva.

Como perceber quando a exigência passou do ponto?

Talvez seja mais útil observar a relação com o resultado do que perguntar apenas se seus padrões são altos. Quando algo dá certo, você consegue reconhecer que deu certo ou encontra imediatamente uma razão para diminuir o próprio mérito? Quando erra, consegue avaliar a importância real daquele erro ou ele rapidamente muda a maneira como você avalia sua capacidade? Também vale observar quanto esforço diferentes tarefas recebem.

Uma decisão importante provavelmente merece mais cuidado do que uma mensagem cotidiana. Um trabalho decisivo pode justificar várias revisões; um e-mail comum talvez não precise do mesmo nível de controle. Quando praticamente tudo recebe o tratamento de uma tarefa decisiva, o custo da exigência começa a aparecer.

O que pode ser trabalhado em psicoterapia?

Na Terapia Cognitivo-Comportamental, o perfeccionismo pode ser trabalhado examinando os padrões usados para avaliar desempenho, o significado atribuído aos erros e os comportamentos utilizados para impedir que algo fique abaixo do esperado. Isso pode envolver experiências bastante concretas: limitar o número de revisões de uma tarefa, entregar algo considerado bom o suficiente ou observar o que realmente acontece quando uma pequena imperfeição permanece.

Aos poucos, pode ser possível continuar valorizando qualidade sem transformar cada resultado numa avaliação sobre quem você é.

Referências

  1. Frost, R. O., Marten, P., Lahart, C., & Rosenblate, R. (1990). The dimensions of perfectionism. Cognitive Therapy and Research, 14, 449–468. doi:10.1007/BF01172967.
  2. Shafran, R., Cooper, Z., & Fairburn, C. G. (2002). Clinical perfectionism: A cognitive-behavioural analysis. Behaviour Research and Therapy, 40(7), 773–791. doi:10.1016/S0005-7967(01)00059-6.
  3. Limburg, K., Watson, H. J., Hagger, M. S., & Egan, S. J. (2017). The relationship between perfectionism and psychopathology: A meta-analysis. Journal of Clinical Psychology, 73(10), 1301–1326. doi:10.1002/jclp.22435.

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