Pensamentos e emoções

Por que sou tão duro comigo mesmo?

“Como eu consegui fazer isso?”

“Eu devia saber melhor.”

“Que coisa idiota.”

Nem sempre essas frases são percebidas como autocrítica. Muitas vezes parecem apenas uma descrição honesta do que aconteceu ou uma maneira de evitar que o erro se repita. Existe, porém, uma diferença entre reconhecer uma falha e atacar a pessoa que a cometeu. Quando essa diferença se perde, a cobrança pode até parecer responsabilidade, mas acrescenta ao problema inicial uma segunda dificuldade: além de lidar com aquilo que aconteceu, é preciso lidar com a conclusão de que há alguma coisa errada consigo por ter acontecido.

Quando avaliar um erro vira avaliar a si mesmo

Autocrítica não significa simplesmente perceber defeitos ou reconhecer que poderíamos ter agido melhor, ela aparece quando avaliações negativas deixam de se dirigir apenas ao comportamento e passam a atingir a própria pessoa. Há uma diferença considerável entre:

“Eu deveria ter me preparado melhor para essa apresentação.”

“Sou incapaz de fazer qualquer coisa direito.”

Isso acontece com facilidade quando já estamos acostumados a falar conosco dessa maneira. Uma apresentação ruim pode virar “sou péssimo nisso”, uma resposta inadequada numa conversa pode se transformar em “não sei me relacionar” e um compromisso esquecido pode rapidamente significar “sou irresponsável”. O acontecimento continua sendo real. O problema é que ele deixa de ser tratado como algo localizado e passa a funcionar como evidência sobre quem somos.

“Se eu não me cobrar, vou piorar”

A lógica costuma ser compreensível: se eu não me pressionar depois de errar, posso me acomodar; se não sentir suficientemente o peso da falha, talvez volte a cometê-la. Paul Gilbert e colaboradores estudaram diferentes formas e funções da autocrítica e encontraram justamente esse aspecto. Algumas pessoas descreviam a crítica a si mesmas como uma maneira de corrigir o comportamento ou impedir erros futuros. Em outras, porém, ela assumia um caráter mais hostil, de ataque e depreciação.

Essa distinção é importante porque cobrança e aprendizagem não são a mesma coisa. Uma pessoa pode corrigir um comportamento depois de se atacar duramente, mas isso não demonstra que o ataque era necessário para produzir a mudança. Na verdade, talvez tenha funcionado apesar dele.

A autocrítica pode produzir ação e ainda assim cobrar um preço

Esse é um dos motivos pelos quais o padrão pode permanecer durante muito tempo. Às vezes, depois de se criticar, a pessoa realmente estuda mais, trabalha até mais tarde ou corrige rapidamente aquilo que fez. A sequência parece confirmar a regra:

“Eu preciso me cobrar para funcionar.”

O problema é que o efeito imediato não mostra todo o custo da estratégia. Uma revisão de estudos sobre autocrítica encontrou relações consistentes com diferentes formas de sofrimento psicológico, incluindo sintomas depressivos, dificuldades interpessoais, ansiedade social e problemas alimentares. Isso não significa que qualquer frase dura dirigida a si mesmo produzirá esses problemas, nem que toda cobrança interna seja necessariamente prejudicial. O ponto é que uma postura persistentemente hostil consigo mesmo não parece ser uma estratégia emocionalmente neutra.

Ela pode manter desempenho em alguns momentos e, ao mesmo tempo, tornar cada falha muito mais pesada do que precisaria ser. Reduzir a autocrítica não significa abandonar critérios. Significa separar a avaliação da conduta da condenação da pessoa.

O contexto também faz parte da avaliação

A autocrítica frequentemente julga resultados como se as circunstâncias não existissem. Talvez você estivesse cansado, não tivesse todas as informações ou estivesse fazendo algo pela primeira vez. Talvez a tarefa fosse realmente difícil. É necessário tentar compreender o acontecimento com as informações relevantes. Curiosamente, costumamos aceitar isso com mais facilidade quando avaliamos outras pessoas. Se alguém não sabia de determinada informação, consideramos esse fato. Se estava passando por um período especialmente difícil, talvez ajustemos nossa avaliação.

Consigo mesmo, às vezes utilizamos um padrão diferente: deveríamos ter sabido aquilo que ainda não aprendemos, previsto o que só ficou evidente depois ou apresentado o mesmo desempenho independentemente das condições. O resultado é uma avaliação que parece rigorosa, mas nem sempre é justa ou particularmente útil.

Como isso pode ser trabalhado em psicoterapia?

Na Terapia Cognitivo-Comportamental, pode ser importante observar como a pessoa interpreta os próprios erros, que generalizações surgem a partir deles e qual função a autocrítica parece cumprir. Em alguns casos, ela funciona como tentativa de motivação. Em outros, como punição ou como maneira de antecipar a crítica que se imagina receber de outras pessoas. Também pode ser útil examinar se existe uma diferença entre aquilo que aconteceu e aquilo que a pessoa concluiu sobre si mesma a partir do episódio.

Uma revisão e meta-análise sobre psicoterapia encontrou que níveis mais elevados de autocrítica antes do tratamento estavam associados, em média, a resultados terapêuticos menos favoráveis. Isso reforça que o padrão não é apenas uma questão de “falar mais bonito consigo mesmo”; ele pode influenciar a maneira como alguém responde inclusive aos próprios esforços de mudança. O objetivo não é substituir toda crítica por elogio.

Também não é convencer alguém de que seus erros não importam. É construir uma forma de avaliação capaz de reconhecer falhas sem transformar cada uma delas numa acusação contra a própria pessoa.

Referências

  1. Gilbert, P., Clarke, M., Hempel, S., Miles, J. N. V., & Irons, C. (2004). Criticizing and reassuring oneself: An exploration of forms, styles and reasons in female students. British Journal of Clinical Psychology, 43(1), 31–50. doi:10.1348/014466504772812959.
  2. Werner, A. M., Tibubos, A. N., Rohrmann, S., & Reiss, N. (2019). The clinical trait self-criticism and its relation to psychopathology: A systematic review – Update. Journal of Affective Disorders, 246, 530–547. doi:10.1016/j.jad.2018.12.069.
  3. Löw, C. A., Schauenburg, H., & Dinger, U. (2020). Self-criticism and psychotherapy outcome: A systematic review and meta-analysis. Clinical Psychology Review, 75, 101808. doi:10.1016/j.cpr.2019.101808.

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