Sentido e Logoterapia

O sentido do trabalho: quando trabalhar deixa de ser apenas produzir

Há dias em que o trabalho parece ocupar quase tudo: horários, preocupações, compromissos, decisões e boa parte da energia disponível. Ainda assim, é possível terminar uma semana cheia com uma sensação estranha de vazio, como se muito tivesse sido feito sem que estivesse claro para quê. Essa experiência não significa necessariamente que a pessoa esteja na profissão errada. Também não significa que todo trabalho precise ser apaixonante ou representar uma vocação. Talvez a pergunta seja um pouco diferente: além de ocupar tempo e produzir resultados, que lugar aquilo que faço tem na vida que estou construindo?

Trabalhar é mais do que gostar do próprio emprego

Quando se fala em “trabalho com propósito”, é fácil imaginar alguém que encontrou a profissão perfeita, acorda motivado todos os dias e sente que cada tarefa corresponde a uma grande missão pessoal. Essa imagem, embora atraente, é estreita demais. Um trabalho pode ter sentido e continuar sendo cansativo. Pode conter tarefas repetitivas, conflitos e dias em que a vontade de estar ali é pequena. Da mesma forma, gostar de determinada atividade não significa necessariamente perceber nela um sentido profundo. O que fazemos pode adquirir importância por diferentes caminhos: por expressar algo que valorizamos, permitir alguma contribuição, conectar-nos a outras pessoas ou simplesmente ocupar um lugar coerente dentro de uma vida que consideramos nossa.

Por isso, perguntar pelo sentido do trabalho é diferente de perguntar apenas: “Eu gosto do meu emprego?” Uma pergunta talvez mais interessante seja: “O que aquilo que faço permite que exista no mundo que, de algum modo, considero importante?” A resposta pode ser grandiosa. Mas frequentemente não é.

O trabalho como uma forma de oferecer algo ao mundo

Viktor Frankl, fundador da Logoterapia, propôs diferentes caminhos pelos quais uma pessoa pode encontrar sentido. Um deles está naquilo que criamos, realizamos ou oferecemos através de nossas ações — os chamados valores de criação. O trabalho pode fazer parte desse caminho. Mas há uma diferença importante: não é determinada profissão que possui sentido por natureza. O mesmo cargo pode ocupar lugares completamente diferentes na vida de duas pessoas. Para alguém, uma atividade pode significar cuidado; para outra, autonomia financeira; para outra, contribuição social; para outra ainda, a possibilidade de desenvolver uma habilidade que considera importante.

Frankl insistia justamente que o essencial não está apenas no que alguém produz, mas na maneira singular como responde às possibilidades que determinada situação lhe apresenta. Isso muda bastante a pergunta. Em vez de procurar desesperadamente “o emprego que dará sentido à minha vida”, torna-se possível observar o trabalho que já existe e perguntar que valores estão sendo realizados — ou impedidos — ali. Para uma professora, por exemplo, o sentido pode não estar simplesmente em “dar aulas”, mas na possibilidade de ajudar alguém a compreender algo que antes parecia inacessível. Para quem trabalha com manutenção, pode aparecer no cuidado com algo de que outras pessoas dependem. Para alguém em uma função administrativa, pode estar na responsabilidade de tornar um processo menos confuso para quem vem depois. Isso não transforma automaticamente qualquer emprego em uma experiência significativa. Apenas mostra que o significado não está contido no nome da profissão.

Nem todo sentido precisa parecer grandioso

Existe certa pressão contemporânea para que o trabalho seja também identidade, paixão, propósito e realização pessoal. Essa expectativa pode criar um problema curioso: experiências suficientemente importantes passam a parecer pequenas porque não correspondem à ideia de uma “grande missão”. Uma pessoa talvez não considere seu trabalho extraordinário, mas reconheça que faz algo bem feito, sustenta pessoas que ama, contribui de alguma maneira para uma comunidade ou preserva uma independência que considera valiosa. Nada disso precisa ser transformado em discurso inspiracional para ter importância.

O sentido também pode estar localizado. Pode existir em determinada tarefa e não em outra; em uma relação construída no trabalho; na responsabilidade assumida diante de alguém; em algo que se aprende; ou na maneira como aquela atividade permite sustentar outras dimensões da vida. Isso ajuda a retirar do trabalho uma exigência impossível: a obrigação de dar sozinho sentido à existência inteira. Na própria Logoterapia, trabalhar e criar constituem apenas uma das formas de realização de sentido. Relações, experiências, encontros, arte, natureza e a maneira como respondemos a situações difíceis também podem ocupar esse lugar. O emprego não precisa carregar a vida toda nas costas.

Mas também não é preciso romantizar um trabalho ruim

Falar de sentido exige outro cuidado. Seria injusto dizer a alguém submetido a condições precárias, exploração, humilhação constante ou ausência de segurança que a solução consiste simplesmente em “encontrar significado” na experiência. Existem problemas cuja resposta não é mudar a atitude individual, mas mudar as condições. A própria pesquisa atual diferencia trabalho significativo de trabalho decente. Encontrar valor subjetivo no que se faz não substitui remuneração adequada, segurança, respeito, condições razoáveis ou direitos. E essas condições concretas também influenciam a possibilidade de experimentar o trabalho como significativo.

Essa distinção é particularmente importante porque a ideia de propósito pode ser usada de maneira bastante conveniente por organizações: pedir dedicação, sacrifício e identificação pessoal sem oferecer condições correspondentes. Sentido não deveria funcionar como justificativa para suportar indefinidamente aquilo que pode e deve ser transformado.

Quando o trabalho começa a perder o sentido

Às vezes, porém, as condições não são necessariamente ruins e ainda assim algo parece ter se perdido. A pessoa continua cumprindo suas funções, talvez até seja competente nelas, mas passa a perceber uma distância crescente entre aquilo que faz e aquilo que considera importante. O trabalho começa a ser vivido quase exclusivamente como sequência de tarefas: terminar uma para receber outra. Nesse momento, procurar sentido não significa necessariamente abandonar tudo. Pode significar primeiro investigar melhor o que se perdeu.

Talvez tenha desaparecido a percepção de contribuição. Talvez uma atividade antes desafiadora tenha se tornado mecânica. Talvez aquilo que justificava determinado esforço já não seja tão importante. Ou talvez o trabalho tenha começado a ocupar tanto espaço que outras fontes de sentido ficaram comprimidas ao redor dele. Essas possibilidades levam a decisões muito diferentes. Por isso, antes de concluir “meu trabalho não tem sentido”, pode ser útil tornar a pergunta mais concreta: O que exatamente deixou de fazer sentido?

É o que faço? A maneira como faço? As condições nas quais faço? As pessoas para quem faço? Ou o espaço que esse trabalho passou a ocupar em relação ao restante da minha vida? Perguntas assim não garantem uma resposta rápida. Mas ajudam a diferenciar problemas que parecem iguais quando resumidos na frase “não vejo mais sentido no meu trabalho”.

Talvez a pergunta não seja “qual é o trabalho certo?”

Há pessoas que encontram uma atividade profissional profundamente ligada àquilo que consideram importante. Outras encontram no trabalho apenas parte disso e realizam dimensões fundamentais da vida em outros lugares. Nenhuma dessas possibilidades precisa ser considerada inferior. Talvez o desafio esteja menos em descobrir uma profissão capaz de responder definitivamente à pergunta sobre o sentido e mais em perceber quais possibilidades de valor existem na situação concreta em que se está — e quais já não existem mais.

Em alguns momentos, essa investigação pode modificar a maneira de se relacionar com o trabalho atual. Em outros, pode tornar mais evidente a necessidade de mudança. O sentido do trabalho, então, não precisa ser uma revelação extraordinária. Pode começar com uma pergunta muito mais simples: o que, entre todas as coisas que faço aqui, ainda considero digno de fazer? A resposta talvez não diga tudo sobre sua profissão. Mas pode dizer bastante sobre o lugar que ela ocupa na sua vida.

Referências

  1. Rosso, B. D.; Dekas, K. H.; Wrzesniewski, A. (2010). On the Meaning of Work: A Theoretical Integration and Review. Research in Organizational Behavior, 30, 91–127.
  2. Allan, B. A. et al. (2019). Outcomes of Meaningful Work: A Meta-Analysis. Journal of Management Studies, 56(3), 500–528
  3. Blustein, D. L.; Lysova, E. I.; Duffy, R. D. (2023). Understanding Decent Work and Meaningful Work. Annual Review of Organizational Psychology and Organizational Behavior, 10, 289–314

Continue lendo

Ver todos em Sentido e Logoterapia ↗
Uma vida boa precisa ser sempre tranquila? O sentido não precisa eliminar o sofrimento As pequenas coisas também podem sustentar uma vida

Toda mudança pode começar com um pequeno passo.

Se você sente que este pode ser um bom momento para iniciar um acompanhamento, podemos conversar sobre disponibilidade e formato de atendimento.

Agendar sessão

Online · Presencial em Fortaleza

CRP 11/24139

Atendimento presencial · Fátima, Fortaleza

Ver localização no Google ↗