Quando alguma coisa dói profundamente, procurar sentido pode parecer uma pergunta distante. Diante de uma perda, de uma doença, de uma mudança irreversível ou de uma situação que não escolhemos, normalmente queremos primeiro que aquilo deixe de acontecer. Se existe uma solução, faz sentido procurá-la; se há uma injustiça que pode ser corrigida, uma condição que pode ser modificada ou uma ajuda que pode diminuir o sofrimento, não há razão para transformar a dor em uma tarefa filosófica. O problema aparece quando não existe uma maneira simples de desfazer o que aconteceu. Nesses momentos, falar em “encontrar sentido no sofrimento” pode soar quase cruel se isso for entendido como obrigação de descobrir algo positivo na experiência. Algumas perdas continuam sendo perdas mesmo depois de compreendidas, e algumas experiências dolorosas não se tornam boas porque aprendemos alguma coisa com elas.
Na perspectiva de Viktor Frankl, a questão não era tornar o sofrimento desejável. Era perguntar se, quando uma situação já não pode ser modificada, ainda existe alguma possibilidade de responder a ela de uma maneira que preserve algo importante.
Nem todo sofrimento precisa receber uma explicação
Existe uma expectativa bastante humana de que experiências difíceis deveriam fazer sentido depois de algum tempo. Procuramos uma causa, uma razão ou algum resultado que explique por que aquilo aconteceu. Quando não encontramos, podemos sentir que a experiência ficou incompleta, como se fosse necessário transformá-la em aprendizado para conseguir seguir adiante. Mas encontrar sentido não é necessariamente encontrar uma explicação. Há acontecimentos para os quais não existe resposta satisfatória à pergunta “por que isso aconteceu comigo?”. Mesmo quando conhecemos as causas, elas podem explicar o acontecimento sem responder ao que ele representa para quem precisa continuar vivendo depois dele.
Essa diferença é importante porque retira uma exigência adicional de quem já está sofrendo. Uma pessoa não precisa concluir que determinada perda “aconteceu por uma razão” para conseguir construir alguma relação significativa com aquilo que viveu. Também não precisa encontrar imediatamente crescimento, gratidão ou transformação pessoal. O sentido pode aparecer em outro lugar: naquilo que ainda se escolhe preservar, na maneira como alguém decide cuidar de uma relação, no modo como atravessa determinado período ou simplesmente na recusa em permitir que uma experiência dolorosa determine sozinha tudo o que a vida passa a significar.
Primeiro, aquilo que pode ser mudado deve poder ser mudado
Esse ponto é fundamental na compreensão de Frankl. A possibilidade de encontrar sentido diante do sofrimento não transforma sofrimento evitável em algo que deva ser suportado. Se uma situação pode ser modificada, agir sobre ela pode ser justamente a resposta mais significativa. Isso vale para muitas experiências concretas. Uma relação abusiva não precisa ser aceita para que a pessoa demonstre força. Uma condição de trabalho injusta não ganha valor porque alguém consegue suportá-la. Um problema de saúde tratável não precisa ser transformado em exercício de aceitação quando há cuidado disponível.
A formulação de Frankl é mais restrita: os chamados valores de atitude tornam-se particularmente importantes diante daquilo que, naquele momento, não pode ser alterado. Eles são justamente como a posição que uma pessoa assume perante uma situação imutável ou um sofrimento inevitável. A distinção evita um erro importante. Não se trata de perguntar “como posso aceitar melhor tudo o que acontece comigo?”, mas de reconhecer que existem situações nas quais agir sobre o mundo é possível e outras nas quais a margem de ação passa a estar, pelo menos parcialmente, na forma de responder ao que já aconteceu.
Ainda existe liberdade quando não podemos escolher a situação?
Talvez essa seja uma das ideias mais conhecidas de Frankl e também uma das que mais facilmente podem ser exageradas. Não escolhemos muitas das condições que atravessam nossa vida. Não escolhemos determinadas perdas, diagnósticos, limitações, acidentes ou acontecimentos provocados por outras pessoas. Também não temos controle completo sobre nossas reações: alguém em luto pode desejar estar melhor e continuar profundamente triste; uma pessoa diante de uma doença grave pode compreender racionalmente sua situação e ainda sentir medo.
Por isso, falar em liberdade não deveria significar que somos capazes de escolher qualquer estado emocional. A liberdade à qual Frankl se refere é uma liberdade situada, limitada pelas circunstâncias. Mesmo quando não podemos decidir tudo o que sentimos ou tudo o que acontece, pode permanecer alguma margem para decidir o que fazemos com aquilo que temos diante de nós. Em psicoterapias contemporâneas inspiradas em Frankl, desenvolvidas inclusive para pessoas vivendo com câncer avançado, essa ideia aparece de maneira semelhante: perdas, limitações e incertezas podem reduzir drasticamente aquilo que alguém controla, sem necessariamente eliminar todas as possibilidades de escolha sobre como continuar se relacionando com pessoas, responsabilidades e fontes de sentido.
Essa margem nem sempre é grande. Em determinados momentos, pode consistir apenas em aceitar ajuda, permitir-se sofrer, manter proximidade com alguém ou escolher como utilizar um tempo que se tornou limitado.
Encontrar sentido não significa sofrer menos imediatamente
Também é importante separar sentido de alívio. Uma pessoa pode saber por que deseja continuar determinada tarefa e ainda sentir tristeza. Pode estar cercada por pessoas importantes e continuar vivendo um luto intenso. Pode reconhecer valor na própria vida e, ao mesmo tempo, desejar profundamente que certa realidade fosse diferente. Essas experiências não são contraditórias. Às vezes, imaginamos que encontrar sentido deveria reorganizar emocionalmente uma experiência até que ela se torne suportável. Quando isso não acontece, podemos concluir que a pessoa ainda não encontrou “a maneira certa” de enxergar aquilo.
Esse raciocínio coloca sobre quem sofre uma responsabilidade injusta. O sentido não precisa retirar a dor para ser real. Fortalecer significado, propósito e conexão não equivale a negar sofrimento existencial ou físico. O trabalho ocorre ao lado dele. Revisões recentes sobre Logoterapia e terapias centradas no sentido em pessoas com câncer tratam sofrimento existencial e experiência de significado como dimensões que podem coexistir, e não simplesmente como extremos que se anulam.
O que pode permanecer quando alguma coisa importante se perde?
Uma perda modifica o mundo da pessoa. Há relações que deixam de existir da maneira como existiam, possibilidades que se fecham e futuros imaginados que precisam ser reconstruídos. Perguntar pelo sentido nesse contexto não precisa significar procurar uma compensação equivalente ao que foi perdido. Talvez seja mais adequado observar o que ainda pode ser preservado ou realizado apesar da mudança. Uma relação com alguém que morreu, por exemplo, não continua da mesma maneira, mas pode permanecer incorporada à história, aos valores e às escolhas de quem vive. Uma doença pode retirar possibilidades importantes e ainda deixar outras intactas. Uma limitação pode exigir abandonar determinado projeto sem eliminar necessariamente tudo o que aquele projeto representava.
Essas respostas são profundamente particulares. O que para uma pessoa representa dignidade pode não ter o mesmo significado para outra, e aquilo que alguém consegue sustentar em determinado momento pode mudar ao longo do tempo. Essa singularidade é central para evitar que a ideia de sentido se transforme em receita. Não existe uma atitude obrigatória diante do sofrimento, muito menos uma exigência de coragem constante.
Há momentos em que a resposta possível é simplesmente atravessar
Parte da dificuldade de falar sobre sentido está em nossa tendência de procurar transformação rapidamente. Depois de uma experiência dolorosa, é comum aparecer a expectativa de que a pessoa saia mais forte, descubra novas prioridades ou encontre uma maneira melhor de viver. Às vezes isso acontece. Às vezes não acontece, ou só se torna perceptível muito tempo depois. Há períodos em que a tarefa mais realista consiste em atravessar os dias com os recursos disponíveis, sem saber ainda o que aquela experiência ocupará na própria história. Isso não torna a vida menos significativa nem representa fracasso diante do sofrimento.
A possibilidade de sentido não precisa ser convertida em cobrança para encontrá-lo imediatamente. Mesmo a ideia frankliana de valores de atitude não exige que toda experiência dolorosa seja transformada numa realização extraordinária. Ela apenas preserva uma possibilidade: quando não conseguimos mais modificar determinada realidade, nossa relação com ela não está necessariamente decidida de uma vez por todas. Podemos continuar respondendo, ajustando, lamentando, escolhendo e reconstruindo aquilo que for possível.
Sentido não torna a dor necessária
Talvez esse seja o cuidado mais importante. Se uma pessoa consegue construir algo valioso depois de uma experiência dolorosa, isso não significa que precisava ter sofrido para chegar até ali. O que nasceu depois não justifica aquilo que aconteceu antes. Uma relação aprofundada durante uma doença não torna a doença desejável. Uma nova direção encontrada depois de uma perda não transforma a perda em algo necessário. Crescimento depois de uma situação difícil não significa que a situação foi boa. Frankl foi explícito ao distinguir sofrimento inevitável de sofrimento que pode ser removido: quando a causa da dor pode ser enfrentada, é justamente essa ação que deve ocorrer. Apenas diante do inevitável aparece de maneira plena a questão da atitude.
Essa distinção permite falar de sentido sem romantizar sofrimento. A vida pode continuar contendo algo importante durante uma experiência dolorosa, mas não porque a dor tenha se tornado boa. Ela continua sendo algo que talvez desejássemos nunca ter vivido.
Talvez sentido seja algo que permanece ao lado da dor
Quando pensamos em sentido como resposta ao sofrimento, podemos esperar que um substitua o outro: primeiro existe a dor, depois encontramos uma explicação, e finalmente a dor perde sua força. A experiência humana raramente é tão organizada. É possível que significado e sofrimento permaneçam juntos durante bastante tempo. Alguém pode continuar sentindo falta de uma pessoa e, ainda assim, preservar profundamente o vínculo que existiu. Pode lamentar uma possibilidade perdida enquanto constrói outras. Pode desejar que uma experiência nunca tivesse acontecido e, ao mesmo tempo, decidir como deseja viver depois dela.
Nesse sentido, talvez a pergunta não seja sempre “qual é o sentido deste sofrimento?”, porque ela pode sugerir que a dor em si precisa conter uma mensagem escondida. Em algumas situações, uma pergunta menos exigente pode ser mais adequada: “diante daquilo que não consigo mudar agora, o que ainda considero importante preservar?” Essa pergunta não promete retirar a dor, explicar o passado ou transformar perda em benefício. Ela apenas reconhece que sofrimento e sentido não precisam se excluir mutuamente e que, mesmo quando parte da realidade já está dada, a vida pode continuar oferecendo alguma margem para resposta.