Imagine que você apresente um trabalho e, ao terminar, receba vários comentários positivos e uma crítica sobre algo que poderia ter sido feito melhor. No caminho para casa, porém, é justamente essa crítica que continua voltando à cabeça. Você relembra a frase, pensa no que deveria ter feito diferente e começa a concluir que sua apresentação não foi tão boa quanto imaginava.
Nada disso exige que você esteja inventando uma realidade. A crítica realmente aconteceu. O que pode ter ocorrido é algo mais sutil: entre todas as informações disponíveis, uma parte ganhou muito mais peso que as demais e passou a representar o conjunto inteiro da experiência. É esse tipo de processo que a Terapia Cognitivo-Comportamental procura compreender quando fala em distorções cognitivas.
O nome pode sugerir que existe uma maneira perfeitamente objetiva de enxergar cada situação e que qualquer desvio dela seria um erro. Na prática, a ideia é menos rígida. Todos nós interpretamos acontecimentos a partir de informações incompletas, experiências anteriores, expectativas e do que parece mais importante naquele momento. A questão surge quando algumas maneiras de interpretar se tornam recorrentes e conduzem repetidamente a conclusões mais estreitas do que a situação permitiria.
O que significa uma distorção cognitiva?
Nos primeiros trabalhos que deram origem à Terapia Cognitiva, Aaron Beck observou que alguns pacientes apresentavam padrões relativamente consistentes na forma como interpretavam acontecimentos. Não se tratava apenas de terem pensamentos negativos diferentes a cada situação. Havia certas maneiras de chegar às conclusões que apareciam repetidamente: tirar uma conclusão com poucas evidências, concentrar-se em um aspecto negativo enquanto outras informações perdiam importância, generalizar um acontecimento específico para situações muito mais amplas. Esses padrões passaram a ser chamados de erros ou distorções cognitivas.
Podemos pensar na diferença entre o conteúdo de um pensamento e a maneira como chegamos até ele. “Meu chefe não gostou do meu trabalho” é um pensamento automático. Se essa conclusão surgiu apenas porque ele estava mais sério durante uma reunião, pode existir ali uma tendência a supor o que outra pessoa pensa sem ter informações suficientes. Em outra situação, o conteúdo será completamente diferente, mas o mesmo modo de interpretar pode aparecer novamente. É por isso que reconhecer pensamentos automáticos é apenas uma parte do processo. Quando vários pensamentos são observados ao longo do tempo, pode começar a aparecer algo maior: uma regularidade na forma de interpretar as situações.
A mente precisa trabalhar com informações incompletas
Há uma razão pela qual não seria realista esperar que todas as nossas interpretações fossem cuidadosamente analisadas antes de chegarmos a qualquer conclusão. Grande parte da vida acontece com informações incompletas. Não sabemos exatamente o que alguém está pensando, não podemos prever com certeza o resultado de uma decisão e muitas vezes precisamos responder rapidamente a situações ambíguas. Nosso cérebro procura padrões, utiliza experiências anteriores e faz estimativas sobre o que provavelmente está acontecendo.
Isso costuma ser bastante útil. Se uma pessoa conhecida responde de maneira incomum, talvez você perceba rapidamente que alguma coisa mudou antes mesmo de saber exatamente o quê. Se nuvens muito escuras aparecem enquanto você está saindo de casa, não é necessário realizar uma análise meteorológica detalhada para considerar a possibilidade de chuva. A dificuldade aparece quando uma possibilidade passa rapidamente a ser tratada como a única explicação possível.
Você envia uma mensagem e não recebe resposta. “Ela deve estar ocupada” e “ela ficou chateada comigo” são duas interpretações possíveis. Se a segunda surge imediatamente e passa a organizar tudo o que acontece depois — a ansiedade, a releitura da conversa, a vontade de mandar outra mensagem, a lembrança de situações anteriores —, vale investigar de onde veio tamanha certeza.
Uma distorção cognitiva não precisa produzir uma interpretação completamente falsa. Às vezes, aquilo que tememos realmente pode acontecer. A questão está em perceber se estamos atribuindo a uma hipótese um grau de certeza que as informações disponíveis ainda não permitem.
Quando uma parte da situação passa a representar o todo
Um dos padrões descritos desde os trabalhos iniciais de Beck envolve selecionar uma parte da experiência e dar a ela um peso desproporcional. Voltemos à apresentação do início. Suponha que cinco pessoas elogiem o trabalho e uma faça uma crítica pertinente. Não existe problema algum em prestar atenção à crítica; ela pode inclusive ser a informação mais útil para melhorar. A distorção aparece se aquela observação passa a apagar todo o restante e se transforma na conclusão “minha apresentação foi ruim”.
Algo parecido pode acontecer em situações muito diferentes. Uma pessoa pode terminar um encontro agradável e passar a noite pensando em um momento de silêncio constrangedor. Pode receber uma avaliação de desempenho geralmente positiva e sair convencida de que seu trabalho está ameaçado porque um ponto precisa melhorar. Pode fazer várias coisas corretamente durante o dia e chegar à noite lembrando apenas do que deixou incompleto. Esse processo é frequentemente chamado de abstração seletiva ou filtro negativo. O nome é menos importante do que a pergunta que ele ajuda a formular: estou levando em consideração o conjunto da situação ou uma parte dela passou a representar tudo?
Essa pergunta não serve para neutralizar automaticamente informações desagradáveis. Uma crítica continua sendo uma crítica. O objetivo é recolocá-la dentro do contexto ao qual pertence. Outro padrão bastante conhecido aparece quando situações complexas começam a ser organizadas em categorias rígidas: deu certo ou deu errado, fui competente ou fui incompetente, a pessoa gosta de mim ou me rejeita. Esse modo de pensar costuma ser chamado de pensamento dicotômico, ou pensamento “tudo ou nada”.
Imagine alguém que estabelece como objetivo fazer exercícios quatro vezes durante a semana, mas consegue ir apenas três. Há várias maneiras de interpretar o resultado. A pessoa pode perceber que não atingiu exatamente o planejado, entender o que dificultou o quarto dia e continuar na semana seguinte. Mas também pode concluir: “não consegui cumprir o plano novamente”. O acontecimento objetivo — três dias de exercício — não desapareceu. O que mudou foi o critério utilizado para avaliá-lo. Se qualquer resultado abaixo de 100% for classificado como fracasso, muitas experiências intermediárias deixam de ser reconhecidas.
O problema não está em ter padrões altos ou distinguir situações que realmente são diferentes. Existem decisões que são binárias e compromissos que precisam ser cumpridos. A rigidez aparece quando essa estrutura começa a ser aplicada a experiências que possuem gradações, fazendo com que resultados razoáveis, avanços parciais ou dificuldades pontuais sejam interpretados como fracassos completos.
Quando tentamos descobrir o que os outros pensam
Algumas das interpretações mais convincentes são também aquelas para as quais temos menos acesso direto. Você termina de contar alguma coisa e percebe que a pessoa ficou séria. Pode surgir imediatamente: “ela achou ridículo”. Essa conclusão talvez esteja correta. Mas também existem outras possibilidades: a pessoa pode ter se distraído, lembrado de alguma coisa, ficado preocupada com outro assunto ou simplesmente ter uma expressão neutra que você interpretou como negativa. Quando presumimos conhecer a avaliação, intenção ou pensamento de outra pessoa com pouca informação, costuma-se falar em leitura mental.
O interessante é que esse tipo de interpretação pode começar a modificar o próprio comportamento. Se você acredita que os outros estão achando sua participação inconveniente, talvez fale menos, evite fazer perguntas ou fique tão atento às reações alheias que tenha dificuldade de acompanhar a conversa. A interpretação deixa, então, de ser apenas uma frase mental e começa a influenciar aquilo que será possível experimentar naquela situação. Isso ajuda a entender por que a TCC não se interessa apenas em classificar um pensamento como distorcido. Também importa perguntar: quando você acredita nisso, o que faz em seguida?
Nós antecipamos acontecimentos o tempo inteiro. Fazemos planos justamente porque conseguimos imaginar o que pode acontecer depois. Em alguns momentos, porém, a previsão deixa de funcionar como possibilidade e ganha o peso de uma conclusão. Uma pessoa é chamada para apresentar um projeto e pensa que provavelmente ficará nervosa. Até aí, existe apenas uma previsão razoável. Mas a sequência pode avançar: “vou travar, ninguém vai saber o que estou querendo dizer, vai ficar evidente que não estou preparado e isso vai prejudicar minha imagem”.
Quando a mente parte rapidamente para consequências graves e passa a tratá-las como altamente prováveis, falamos frequentemente em catastrofização. O processo pode aumentar a ansiedade antes mesmo que a situação aconteça e favorecer estratégias para tentar impedir o resultado temido, como evitar a apresentação, preparar cada frase de maneira exaustiva ou buscar garantias repetidas de que tudo ficará bem. Novamente, não há necessidade de fingir que nada ruim pode acontecer. Uma apresentação pode realmente sair abaixo do esperado. A questão mais útil é avaliar a distância entre algo ser possível e algo estar sendo tratado como inevitável.
Há também momentos em que uma experiência específica começa a produzir conclusões muito mais amplas. Uma tentativa de relacionamento termina mal e surge “meus relacionamentos nunca dão certo”. Uma pessoa é reprovada em uma seleção e pensa “eu sempre estrago minhas oportunidades”. Alguém recebe uma crítica e conclui “ninguém valoriza o que eu faço”. Esse movimento costuma ser chamado de generalização excessiva. A dificuldade está em utilizar um número limitado de experiências para construir uma regra muito abrangente.
É fácil entender por que isso acontece. Experiências importantes deixam marcas e naturalmente influenciam nossas expectativas. Se alguém foi criticado repetidamente em determinado contexto, faz sentido que se torne mais atento à possibilidade de crítica no futuro. O que merece ser examinado é quando aquilo que aconteceu passa a funcionar como prova de que o mesmo resultado continuará acontecendo independentemente das circunstâncias. Nesse ponto, perceber a generalização pode permitir uma pergunta mais precisa: o que aquela experiência realmente permite concluir — e o que está sendo acrescentado à conclusão?
As distorções cognitivas não são defeitos de personalidade
Ao conhecer esses termos, existe o risco de começar a classificar cada pensamento próprio ou alheio: “isso é catastrofização”, “isso é leitura mental”, “isso é pensamento tudo ou nada”. A classificação pode ajudar a reconhecer padrões, mas perde valor quando vira um julgamento. Distorções cognitivas não significam que uma pessoa seja irracional, pessimista ou incapaz de enxergar a realidade. Pesquisas sobre vieses e erros cognitivos encontraram relações com dificuldades como depressão e ansiedade, mas esses padrões também aparecem em diferentes graus fora de quadros clínicos, e nem todos possuem a mesma importância ou especificidade. 
Isso é importante porque evita transformar uma ferramenta de compreensão em outro motivo para autocobrança. Perceber que você está imaginando o pior cenário não significa que deveria ter pensado “corretamente” desde o início. Às vezes, o pensamento surgiu em um contexto em que existiam motivos compreensíveis para estar alerta; em outras ocasiões, aquela maneira de interpretar foi reforçada ao longo de muitos anos. A pergunta clinicamente interessante não é “por que minha mente faz isso errado?”, mas “o que essa maneira de interpretar está fazendo nesta situação e quanto ela corresponde às informações que tenho?”
Esse talvez seja o cuidado mais importante. Imagine alguém que pensa: “meu colega está irritado comigo”. O terapeuta identifica que existe uma possível leitura mental. Isso não demonstra que o colega não esteja irritado. Talvez esteja. Da mesma maneira, perceber catastrofização não garante que a consequência temida seja impossível, assim como reconhecer uma generalização não significa que experiências anteriores devam ser ignoradas. Nomear o padrão apenas mostra que existe alguma coisa que merece ser examinada com maior cuidado.
Por isso, utilizar uma lista de distorções cognitivas como se fosse um gabarito pode empobrecer aquilo que deveria ser um processo de investigação. Uma interpretação precisa ser considerada dentro da situação concreta, das evidências disponíveis, da história daquela pessoa e das consequências que produz.
Até mesmo pesquisas sobre mudança cognitiva sugerem um quadro mais complexo do que simplesmente “diminuir a quantidade de distorções”. Em um estudo com pessoas em terapia cognitiva para depressão, por exemplo, os erros cognitivos negativos diminuíram ao longo do tratamento, mas o número total de erros não apresentou a mesma redução simples, o que reforça a necessidade de olhar para conteúdo, contexto e função em vez de apenas contar pensamentos classificados como distorcidos.
Reconhecer o padrão é o começo, não a solução
Quando alguém começa a perceber seus próprios padrões, pode acontecer algo interessante. Uma situação que antes parecia produzir uma conclusão inevitável passa a conter um pequeno espaço de dúvida.
“Ela está me evitando” pode se tornar “percebi que rapidamente concluí que ela está me evitando”.
“Eu estraguei tudo” pode começar a ser reconhecido como uma interpretação que transforma um problema específico em uma avaliação global.
Esse espaço não exige que a pessoa escolha imediatamente uma interpretação mais agradável. Ele apenas permite que aquilo que surgiu automaticamente seja examinado antes de orientar toda a resposta. É nesse ponto que a Terapia Cognitivo-Comportamental pode avançar para outra etapa: perguntar quais informações sustentam determinada conclusão, quais parecem contradizê-la, se existem explicações alternativas e, quando possível, observar o que acontece ao agir a partir de uma hipótese diferente. Esse processo é chamado de reestruturação cognitiva, mas seu objetivo não é substituir pensamentos negativos por positivos. Trata-se de aprender a examinar interpretações de maneira mais cuidadosa e flexível.
Referências
- Beck, A. T. (1963). Thinking and depression: I. Idiosyncratic content and cognitive distortions. Archives of General Psychiatry, 9(4), 324–333.
- Beck, A. T. (1964). Thinking and depression: II. Theory and therapy. Archives of General Psychiatry, 10(6), 561–571.
- Nieto, I., Robles, E., & Vázquez, C. (2020). Self-reported cognitive biases in depression: A meta-analysis. Clinical Psychology Review, 82, 101934.
- Blake, E., Dobson, K. S., Sheptycki, A. R., & Drapeau, M. (2016). Changes in cognitive errors over the course of cognitive therapy for depression. Journal of Cognitive Psychotherapy, 30(1), 16–34.