Às vezes, uma emoção parece surgir antes que exista qualquer explicação para ela.
Você entra em uma sala e percebe duas pessoas conversando mais baixo. Quase imediatamente sente um desconforto. Talvez fique mais atento ao que está fazendo ou comece a se perguntar se estavam falando de você. Quando tenta explicar o que aconteceu, pode parecer que a ansiedade simplesmente apareceu.
Mas entre perceber a conversa e sentir o desconforto talvez tenha ocorrido algo muito rápido:
“Será que estão falando de mim?” Esse tipo de interpretação pode surgir tão depressa que quase não é percebido como pensamento. A pessoa nota primeiro a emoção, a tensão no corpo ou a vontade de agir de determinada maneira. Na Terapia Cognitivo-Comportamental, essas interpretações rápidas são frequentemente chamadas de pensamentos automáticos.
O que são pensamentos automáticos?
Pensamentos automáticos são ideias, interpretações ou imagens que aparecem espontaneamente diante das situações. O termo “automático” não significa que sejam misteriosos ou incontroláveis. Significa principalmente que eles surgem sem que seja necessário construí-los deliberadamente. Você provavelmente não precisa parar e raciocinar durante vários minutos para interpretar a expressão de alguém, avaliar como foi uma resposta que recebeu ou imaginar o que uma pessoa quis dizer com determinada frase. Muitas dessas interpretações simplesmente aparecem. Isso acontece o tempo inteiro e faz parte do funcionamento comum da mente.
Se alguém sorri quando você chega, pode surgir algo como “ela ficou feliz em me ver”. Se seu chefe pede para conversar no fim do expediente, talvez apareça imediatamente “fiz alguma coisa errada”. Se você erra uma resposta simples, pode pensar “que vergonha”. Às vezes, o pensamento aparece como uma frase bastante clara. Em outras situações, pode surgir como uma imagem, uma lembrança ou uma impressão difícil de colocar em palavras. O ponto importante é que, muitas vezes, não percebemos que houve uma interpretação. Apenas reagimos a ela.
Um pensamento pode parecer um fato
Imagine que você apresente uma ideia durante uma reunião e ninguém faça comentários imediatamente. Uma pessoa pode interpretar o silêncio como algo neutro: talvez estejam pensando no assunto.
Outra pode perceber o mesmo silêncio e pensar:
“Minha ideia foi péssima.”
A partir daí, talvez sinta vergonha, fale menos durante o restante da reunião e passe algum tempo depois revendo o que disse. O pensamento apareceu rapidamente e pode ter sido vivido quase como uma constatação. Esse é um aspecto importante dos pensamentos automáticos: no momento em que surgem, frequentemente não vêm acompanhados da sensação de que estamos formulando uma hipótese.
“Minha ideia foi péssima” pode ser experimentado internamente de maneira muito diferente de:
“Estou tendo a impressão de que minha ideia foi ruim.”
A diferença parece pequena, mas é importante. Na primeira forma, pensamento e realidade praticamente se confundem. Na segunda, já existe algum espaço para observar a própria interpretação. Parte do trabalho da TCC consiste justamente em criar esse espaço. É comum encontrar a expressão “pensamentos automáticos negativos”, mas pensamentos automáticos não precisam ser negativos. Você pode olhar para o céu escuro e pensar “vai chover”. Pode ouvir o celular tocar e imaginar quem enviou a mensagem. Pode entrar em um restaurante conhecido e pensar imediatamente no prato que costuma pedir. Nosso cotidiano seria muito mais trabalhoso se precisássemos examinar conscientemente cada interpretação antes de agir.
O problema não é a existência de pensamentos rápidos. A dificuldade aparece quando certas interpretações se repetem de maneira rígida e passam a influenciar constantemente emoções e comportamentos sem serem percebidas ou examinadas. Alguém que costuma esperar rejeição pode interpretar pequenos sinais de ambiguidade como indícios de que está sendo rejeitado. Uma pessoa muito preocupada em não cometer erros pode perceber uma falha pequena como sinal de que fez algo grave. Não é necessário existir um transtorno psicológico para que isso aconteça. Todos nós temos maneiras habituais de interpretar situações. Em alguns períodos da vida, porém, determinados pensamentos podem se tornar especialmente frequentes ou dolorosos.
Um dos motivos pelos quais pensamentos automáticos podem ser difíceis de identificar é que eles costumam acontecer muito rápido. Imagine alguém saindo de uma conversa sentindo vergonha.
Se perguntado sobre o que aconteceu, talvez responda apenas:
“Não sei. Fiquei constrangido.”
Mas, ao reconstruir aquele momento com um pouco mais de calma, pode aparecer algo que passou quase despercebido: “Eu falei demais.” ou “Ela deve ter achado que eu sou inconveniente.” A emoção não estava necessariamente sem explicação. A interpretação apenas aconteceu rápido demais para chamar atenção, esses pensamentos podem permanecer próximos da "fronteira" da consciência, influenciando a forma como interpretamos e reagimos às situações. Isso ajuda a entender por que, em terapia, às vezes é mais útil voltar a uma situação concreta do que perguntar genericamente “o que você pensa sobre isso?”.
A pergunta pode ser:
“Naquele momento específico, quando percebeu aquilo, o que passou pela sua cabeça?”
Situações diferentes podem revelar um mesmo padrão
Um pensamento automático isolado nem sempre é particularmente importante.
Suponha que você pense uma vez:
“Ele não gostou de mim.”
Isso pode ser apenas uma impressão passageira.
Mas imagine que pensamentos semelhantes apareçam repetidamente:
“Ela está incomodada comigo.”
“Devia ter ficado quieto.”
“Acho que falei alguma coisa errada.”
“Talvez eles não queiram que eu esteja aqui.”
As situações são diferentes, mas existe uma semelhança na maneira como estão sendo interpretadas. É nesse ponto que observar pensamentos automáticos começa a fornecer informações interessantes. Em vez de discutir cada pensamento separadamente, pode ser possível perceber um padrão: talvez aquela pessoa esteja particularmente atenta a sinais de rejeição, crítica ou inadequação. Isso não significa concluir imediatamente por que esse padrão existe. A mesma forma de pensar pode ter histórias e funções muito diferentes em pessoas diferentes. Mas reconhecer a repetição ajuda a formular perguntas melhores.
Perceber um pensamento não significa combatê-lo
Outro equívoco frequente é imaginar que identificar pensamentos automáticos serve para começar uma discussão interna contra eles.
Surge:
“Eu vou fracassar.”
E a pessoa deveria responder:
“Não, eu sou ótimo e tudo dará certo.”
Esse não é o objetivo. Antes de tentar modificar alguma coisa, é útil compreender o que aconteceu.
Qual era a situação?
O que passou pela cabeça?
Que emoção surgiu?
O que a pessoa fez depois?
Às vezes, apenas separar esses elementos já muda a forma de enxergar uma experiência. Considere alguém que recebe uma crítica no trabalho e passa o resto do dia desanimado. Ao observar melhor o episódio, percebe que não pensou apenas “meu chefe apontou um problema”. O pensamento foi: “Se cometi esse erro, significa que não sou bom no que faço.” Agora existe algo mais preciso para investigar. O trabalho deixa de ser simplesmente “não ficar tão mal quando recebe críticas” e passa a incluir uma pergunta sobre o significado atribuído ao erro. Também seria pouco útil transformar a vida em uma fiscalização permanente da própria mente. Nem todo pensamento precisa ser anotado, analisado ou corrigido.
Na TCC, costuma ser mais interessante observar aqueles que estão ligados a emoções intensas, decisões importantes ou padrões de comportamento que estão trazendo sofrimento. Se alguém sente ansiedade antes de uma apresentação e pensa “estou nervoso”, talvez não exista nada particularmente importante para examinar ali. Mas se surge “se eu gaguejar, todo mundo vai perceber que sou incompetente”, essa interpretação talvez ajude a compreender melhor por que aquela situação produz tanta ansiedade. A relevância de um pensamento depende do contexto e do papel que ele desempenha.
O que a TCC faz com eles?
Depois que uma interpretação consegue ser percebida, diferentes caminhos são possíveis. Às vezes será útil verificar se ela está baseada nas informações disponíveis. Em outros casos, será mais importante entender o que a pessoa faz quando acredita naquele pensamento. Também pode ser necessário observar se determinada interpretação aparece repetidamente em situações semelhantes e o que isso revela sobre a maneira como a pessoa está compreendendo aquelas experiências. Esse processo não procura eliminar pensamentos desagradáveis. Pensamentos difíceis continuam aparecendo. Algumas preocupações são razoáveis. Algumas críticas são verdadeiras. Algumas situações realmente terminam mal.
O objetivo é diminuir a distância entre ter um pensamento e tratá-lo automaticamente como uma conclusão definitiva. Essa possibilidade de observar, investigar e testar interpretações é uma parte importante da Terapia Cognitivo-Comportamental.  No entanto, perceber um pensamento é apenas o começo. O passo seguinte é entender por que algumas interpretações tendem a seguir sempre determinados caminhos — assunto que se conecta às chamadas distorções cognitivas — e como uma interpretação pode ser examinada sem simplesmente substituí-la por outra mais agradável.
Referências
- Beck, A. T., Rush, A. J., Shaw, B. F., & Emery, G. (1979). Cognitive Therapy of Depression. Guilford Press.
- Froeseler, M. V. G., Santos, J. A. M., & Teodoro, M. L. M. (2013). Instrumentos para avaliação de pensamentos automáticos: uma revisão narrativa. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, 9(1).
- Kwon, S. M., & Oei, T. P. S. (2003). Cognitive change processes in a group cognitive behavior therapy of depression. Journal of Behavior Therapy and Experimental Psychiatry, 34(1), 73–85.