A cena pode parecer diferente: em vez de entrar em um consultório, a pessoa fecha a porta de um quarto, coloca os fones de ouvido e abre uma chamada de vídeo. Depois dos primeiros minutos, porém, surge uma pergunta importante: isso funciona realmente como psicoterapia?
Em muitos aspectos, sim. A terapia online continua sendo um encontro entre psicólogo e paciente voltado à compreensão de dificuldades, construção de objetivos e desenvolvimento de mudanças. O que muda é o meio pelo qual esse encontro acontece. E essa mudança, embora pareça simples, traz algumas condições próprias que precisam ser consideradas.
No Brasil, o atendimento psicológico mediado por tecnologias digitais está regulamentado pelo Conselho Federal de Psicologia. Ele está submetido aos mesmos princípios éticos e técnicos do atendimento presencial, incluindo responsabilidade profissional, sigilo e avaliação da adequação do serviço à situação da pessoa atendida. Isso significa que terapia online não é apenas “conversar com um psicólogo pela internet”. É uma modalidade de atendimento psicológico que precisa preservar as condições necessárias para que a psicoterapia possa acontecer.
Como acontece uma sessão de terapia online?
Na forma mais comum, psicólogo e paciente se encontram em horário combinado por videochamada. A duração, a frequência dos encontros, os objetivos do processo e boa parte daquilo que acontece durante a sessão não precisam ser diferentes apenas porque existe uma tela entre as duas pessoas. O paciente pode trazer acontecimentos da semana, dificuldades que vêm se repetindo, dúvidas, pensamentos, emoções ou situações que gostaria de compreender melhor.
O psicólogo também pode fazer perguntas, retomar temas de sessões anteriores, ajudar a observar padrões, propor exercícios ou combinar experiências para serem observadas entre os encontros, dependendo da abordagem e daquilo que estiver sendo trabalhado.
Uma sessão de Terapia Cognitivo-Comportamental online, por exemplo, pode incluir o mesmo tipo de investigação que ocorreria presencialmente: compreender uma situação, observar as interpretações que surgiram, perceber emoções e comportamentos associados e pensar no que poderia ser experimentado de maneira diferente. A tecnologia modifica o contexto da conversa. Não precisa modificar sua finalidade.
Estar em casa não significa simplesmente conversar de qualquer lugar
Uma diferença importante aparece antes mesmo de a sessão começar. No consultório, parte do ambiente já foi organizada pelo profissional. Existe uma sala destinada ao atendimento, algum controle sobre interrupções e uma separação mais clara entre aquele momento e o restante do dia. No atendimento online, uma parte dessas condições passa a depender também do local em que o paciente está.
Imagine tentar falar sobre um conflito familiar sabendo que alguém pode atravessar o corredor e ouvir. Ou abordar uma questão íntima enquanto chegam mensagens de trabalho na mesma tela. Tecnicamente, a chamada está funcionando; psicologicamente, talvez não exista liberdade suficiente para conversar.
Por isso, quando possível, é importante encontrar um ambiente em que haja alguma privacidade e poucas interrupções. Fones de ouvido podem ajudar, assim como silenciar notificações e reservar aqueles minutos exclusivamente para a sessão. Não é necessário criar um pequeno consultório dentro de casa. O objetivo é mais simples: construir condições para que aquela conversa possa acontecer com atenção e segurança.
Essa preocupação não é apenas uma preferência prática. A regulamentação profissional brasileira determina que o psicólogo avalie as condições tecnológicas e contextuais relacionadas à privacidade e à confidencialidade no atendimento mediado por tecnologias digitais. O dever de sigilo profissional continua existindo.
O fato de a sessão ocorrer pela internet não torna seu conteúdo menos protegido pelas obrigações éticas da Psicologia. Ao mesmo tempo, o meio digital introduz questões que não aparecem da mesma maneira em uma sala física: plataforma utilizada, dispositivos, conexão, presença de outras pessoas no ambiente e formas de comunicação fora da sessão. Por isso, as condições do atendimento online precisam ser combinadas. A regulamentação atual prevê que o psicólogo informe os recursos tecnológicos utilizados e os cuidados relacionados ao sigilo das informações.
Do lado do paciente, algumas escolhas também fazem diferença. Fazer a sessão em um espaço compartilhado, utilizar um computador ao qual outras pessoas têm acesso ou deixar uma conversa aberta em um dispositivo coletivo pode reduzir a privacidade, mesmo que a plataforma utilizada pelo profissional seja adequada.
Isso não significa que seja possível eliminar todo risco tecnológico. Também não significa que o paciente precise dominar segurança digital antes de começar terapia. Significa apenas que o ambiente virtual precisa ser tratado como parte do próprio enquadre do atendimento.
É possível criar vínculo com um psicólogo pela tela?
Essa talvez seja uma das dúvidas mais intuitivas sobre terapia online. Uma relação terapêutica envolve confiança, mas não somente confiança. Também envolve conseguir trabalhar em conjunto: sentir que determinados assuntos podem ser abordados, compreender o que está sendo feito, construir objetivos e conseguir conversar quando alguma coisa no próprio processo não está funcionando. Nada disso depende exclusivamente de estar fisicamente na mesma sala.
Pesquisas comparando psicoterapia por videoconferência e presencial têm encontrado resultados importantes nesse sentido. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada no Journal of Telemedicine and Telecare, reunindo 18 estudos, não encontrou diferença estatisticamente significativa na qualidade da aliança terapêutica entre os dois formatos, tanto nas avaliações feitas por pacientes quanto por terapeutas.
Isso não significa que todas as pessoas experimentarão as duas modalidades da mesma maneira. Para alguém, conversar pela tela pode parecer natural rapidamente; para outra pessoa, a presença física pode facilitar aspectos importantes do encontro.
Também podem existir momentos curiosos no online: uma conexão que trava justamente quando algo importante está sendo dito, alguns segundos tentando descobrir se a outra pessoa terminou de falar ou a necessidade de repetir uma frase que o áudio cortou. Esses pequenos ruídos fazem parte do meio. O ponto é que uma relação terapêutica significativa pode ser construída online. A tela não elimina automaticamente aquilo que torna uma relação clínica possível. A pergunta parece simples, mas precisa ser formulada com algum cuidado.
Não existe uma entidade única chamada “terapia online” que produza os mesmos resultados independentemente do problema, da abordagem, do profissional e da pessoa atendida. Da mesma forma, estar presencialmente em um consultório não torna qualquer psicoterapia automaticamente eficaz.
Estudos sobre psicoterapia por videoconferência encontraram resultados clínicos favoráveis em diferentes contextos. Uma revisão e meta-análise anterior, por exemplo, encontrou redução de sintomas comparável à obtida em tratamentos presenciais nas pesquisas analisadas. A evidência acumulada é suficiente para afastar a ideia de que psicoterapia por vídeo seja, por definição, uma versão inferior ou apenas provisória do atendimento presencial. Mas isso não transforma o formato em solução universal. Uma pergunta mais útil costuma ser: para esta pessoa, com esta dificuldade e nestas condições, o atendimento online oferece condições adequadas para realizar o trabalho necessário?
Essa avaliação é clínica, não apenas tecnológica.
Quando o formato online pode exigir mais cuidado?
Ter acesso a uma câmera e uma boa conexão não é o único critério para decidir se um atendimento pode acontecer à distância. Existem situações em que o psicólogo precisa avaliar especialmente a existência de uma rede presencial capaz de oferecer suporte. A regulamentação brasileira chama atenção, entre outros contextos, para situações envolvendo risco à vida ou à integridade, violência, violação de direitos, urgências e emergências. Dependendo do caso, pode ser necessário articular atendimento com serviços presenciais ou encaminhar a pessoa para uma rede capaz de oferecer o cuidado necessário.
Isso não quer dizer que qualquer pessoa passando por uma situação grave esteja automaticamente impedida de ter contato psicológico online. A questão é outra: existem circunstâncias em que a distância limita aquilo que o profissional consegue fazer se algo urgente acontecer. Também pode haver limitações muito mais cotidianas.
Uma pessoa pode não ter qualquer espaço privado em casa. Outra pode depender de uma conexão instável que interrompe repetidamente a sessão. Para algumas demandas, podem ser necessários recursos ou condições que não estão disponíveis naquele formato. Por isso, decidir pela terapia online não deveria depender apenas da conveniência. A conveniência importa, mas a qualidade do cuidado também.
Para quem a terapia online pode fazer sentido?
O formato pode facilitar bastante o acesso quando deslocamento, horários, distância ou rotina tornam difícil comparecer regularmente a um consultório. Alguém que viaja com frequência pode conseguir manter maior continuidade. Uma pessoa que mora longe do profissional com quem deseja trabalhar elimina o tempo de deslocamento. Quem possui limitações de mobilidade também pode encontrar no atendimento remoto uma possibilidade importante de acesso, desde que a tecnologia utilizada seja adequada às suas necessidades — aspecto que o próprio CFP reconhece ao tratar de acessibilidade nos serviços mediados por tecnologias digitais.
Existe ainda um benefício menos evidente: algumas pessoas se sentem confortáveis conversando a partir de um ambiente conhecido. Para outras, entretanto, justamente o contrário pode acontecer. Sair de casa e chegar a um espaço separado da rotina pode ajudar a marcar psicologicamente o início e o fim da sessão. Nenhuma dessas respostas é universal.
É por isso que “para quem faz sentido?” não pode ser respondido apenas com uma lista de perfis. O formato adequado depende da combinação entre condições práticas, características da demanda e maneira como aquela pessoa consegue se envolver no processo. Algumas questões simples ajudam a pensar na viabilidade do atendimento online. Existe um lugar em que você consegue conversar com razoável privacidade? Sua conexão permite manter uma chamada de vídeo de forma minimamente estável? Você consegue reservar aquele período sem precisar dividir atenção continuamente com outras tarefas?
O profissional explicou como funciona o atendimento e quais recursos serão utilizados? E, depois de algumas sessões, você consegue se envolver suficientemente na conversa para que o processo avance? Essas perguntas não precisam ser transformadas em um teste de elegibilidade. Algumas dificuldades podem ser ajustadas. Outras só ficam claras depois que o processo começa. O importante é que o formato não seja tratado como um detalhe irrelevante.
Terapia online continua sendo psicoterapia
Quando realizada em condições adequadas, a terapia online não precisa ser entendida como uma conversa menos completa porque acontece por vídeo. O processo continua envolvendo aquilo que caracteriza uma psicoterapia: compreender dificuldades, construir objetivos, observar padrões, experimentar novas respostas e acompanhar aquilo que muda — ou não muda — ao longo do tempo. A diferença é que parte do espaço terapêutico precisa ser construída de outra maneira. No consultório, existe uma porta que se fecha. Online, talvez essa porta seja literalmente a do quarto, acompanhada de fones de ouvido, uma conexão suficientemente estável e alguns acordos sobre como aquele encontro acontecerá.
São condições diferentes para sustentar um trabalho que continua sendo clínico. A pergunta seguinte, então, não precisa ser se a terapia online é uma “terapia de verdade”. Pode ser algo mais útil: entre o atendimento online e o presencial, quais diferenças realmente importam para mim?
Referências
- Conselho Federal de Psicologia. (2024). Resolução CFP nº 9, de 18 de julho de 2024. Regulamenta o exercício profissional da Psicologia mediado por Tecnologias Digitais da Informação e da Comunicação.
- Norwood, C., Moghaddam, N. G., Malins, S., & Sabin-Farrell, R. (2018). Working alliance and outcome effectiveness in videoconferencing psychotherapy: A systematic review and noninferiority meta-analysis. Clinical Psychology & Psychotherapy, 25(6), 797–808. https://doi.org/10.1002/cpp.2315
- Seuling, P. D., Fendel, J. C., Spille, L., Göritz, A. S., & Schmidt, S. (2024). Therapeutic alliance in videoconferencing psychotherapy compared to psychotherapy in person: A systematic review and meta-analysis. Journal of Telemedicine and Telecare, 30(10), 1521–1531. https://doi.org/10.1177/1357633X231161774