Quando as duas possibilidades estão disponíveis, a dúvida costuma aparecer de forma direta: é melhor fazer terapia online ou presencialmente?
Não existe uma resposta única. Para algumas pessoas, o atendimento online torna a psicoterapia possível porque elimina deslocamentos, facilita encaixes na rotina ou permite continuar com o mesmo profissional mesmo quando existe distância física. Para outras, sair de casa, chegar a um consultório e permanecer em um espaço separado da rotina ajuda a entrar naquele momento de maneira diferente.
As duas modalidades podem sustentar um trabalho psicoterapêutico consistente. Pesquisas comparando psicoterapia por videoconferência e atendimento presencial encontraram resultados semelhantes em diferentes contextos, e uma meta-análise recente não encontrou diferença estatisticamente significativa na qualidade da aliança terapêutica avaliada por pacientes ou terapeutas.
A escolha, portanto, não precisa começar pela pergunta “qual funciona mais?”. Pode começar por outra: em qual formato existem melhores condições para que eu consiga participar da terapia com continuidade, privacidade e envolvimento?
A diferença mais evidente é também uma das mais importantes: chegar até a sessão
No atendimento presencial, a terapia ocupa espaço físico na rotina. É necessário considerar deslocamento, trânsito, transporte, estacionamento e o tempo entre sair de uma atividade e chegar ao consultório. Dependendo da cidade e dos horários disponíveis, uma sessão de cinquenta minutos pode exigir bem mais do que cinquenta minutos do dia. No online, grande parte desse custo desaparece. É possível terminar uma atividade, organizar um espaço reservado e iniciar a sessão poucos minutos depois.
Isso pode parecer apenas uma questão de comodidade, mas a psicoterapia depende de continuidade. Uma modalidade que exige um esforço difícil de sustentar toda semana pode acabar produzindo faltas, remarcações ou interrupções que não teriam ocorrido em outras condições. Pesquisas qualitativas com pessoas atendidas por vídeo mostram justamente que economia de tempo, distância e dificuldades de acesso aos serviços aparecem entre os principais motivos para valorizar o atendimento remoto. Por outro lado, facilidade logística não garante automaticamente uma boa experiência terapêutica.
Às vezes, justamente por estar tão próximo do restante da rotina, o encontro online pode acabar comprimido entre duas tarefas: a pessoa termina uma reunião de trabalho às 15h59, entra na terapia às 16h e, às 16h50, já está respondendo mensagens novamente. O deslocamento presencial é mais trabalhoso, mas pode também criar uma transição. Existe algo particular em atravessar uma porta e entrar em um espaço onde a única tarefa prevista para aquele período é estar em terapia. O trajeto até o consultório pode criar alguns minutos para perceber como a pessoa chega à sessão. O caminho de volta pode oferecer um intervalo antes de retornar às exigências cotidianas.
Para algumas pessoas, essa separação ajuda. Para outras, acontece o contrário. Estar em casa pode diminuir o estranhamento inicial e facilitar uma conversa difícil. Um ambiente conhecido pode proporcionar conforto suficiente para que a pessoa fale com mais liberdade. Nenhuma dessas experiências pode ser antecipada apenas olhando para a modalidade escolhida.
Alguém pode imaginar que prefere presencialmente e descobrir que se sente bastante confortável pela tela. Outra pessoa pode começar online pela praticidade e perceber, algum tempo depois, que sente falta de uma separação maior entre terapia e rotina. A própria experiência pode ensinar alguma coisa sobre a escolha.
Privacidade pode favorecer uma modalidade e inviabilizar a outra
No atendimento presencial, o consultório já oferece parte das condições necessárias para uma conversa reservada. No online, elas precisam existir onde o paciente estiver. Quem mora sozinho ou dispõe de um cômodo em que consegue conversar sem ser ouvido talvez não encontre grande dificuldade. Mas isso muda bastante quando outras pessoas permanecem próximas, quando a casa é pequena ou quando os assuntos tratados envolvem justamente quem está no ambiente. Não é fácil falar livremente sobre um conflito com alguém enquanto se presta atenção aos sons do corredor para descobrir se essa pessoa está chegando.
Esse ponto merece mais peso do que simplesmente perguntar se há internet disponível. Estudos sobre experiências de pacientes com videoconferência identificam a dificuldade de conseguir um espaço privado em casa como uma das barreiras relevantes ao formato remoto.
Ao mesmo tempo, o presencial também pode apresentar questões de privacidade para algumas pessoas. Alguém que vive numa cidade pequena pode se preocupar em ser reconhecido entrando em determinada clínica; outra pessoa pode depender de justificar repetidamente deslocamentos e horários. A questão não é qual formato é “mais privado” em abstrato. É onde aquela pessoa consegue conversar com mais liberdade nas condições reais que possui.
A presença física faz diferença?
Faz — mas isso não significa automaticamente que faça a terapia funcionar melhor. Quando duas pessoas estão no mesmo espaço, há elementos da interação que chegam sem mediação tecnológica. Não existe atraso da conexão, enquadramento da câmera ou risco de o áudio desaparecer durante alguns segundos. Para algumas pessoas, essa presença parece especialmente importante. Elas percebem o encontro presencial como mais próximo ou encontram mais facilidade para permanecer emocionalmente envolvidas na conversa. Outras relatam pouca diferença depois que se acostumam ao atendimento remoto.
As pesquisas ajudam a colocar essa questão em perspectiva. Estudos sobre psicoterapia por videoconferência mostram que uma aliança terapêutica consistente pode ser construída à distância. Uma meta-análise de 18 estudos não encontrou diferença significativa entre online e presencial nas avaliações da relação terapêutica feitas por pacientes ou profissionais. Isso não significa que cada pessoa terá exatamente a mesma experiência nos dois formatos. Resultados médios de pesquisas respondem se um formato pode sustentar uma boa relação terapêutica. Eles não decidem qual das duas experiências uma pessoa específica prefere.
Essa distinção importa. Uma diferença menos evidente aparece no comportamento durante o próprio encontro. Em casa, talvez seja mais fácil manter perto o celular, abrir outra janela no computador ou responder rapidamente a uma notificação. A sessão acontece no mesmo ambiente em que muitas outras coisas costumam acontecer. Presencialmente, essas distrações tendem a estar mais afastadas.
Mas o online também pode facilitar algumas situações. Em determinados trabalhos terapêuticos, estar no próprio ambiente permite observar elementos da rotina com mais proximidade ou falar sobre algo imediatamente relacionado ao contexto em que a pessoa vive. Nenhuma dessas características é universalmente boa ou ruim. A pergunta mais útil é observar o que realmente acontece: quando estou nesse formato, consigo estar suficientemente presente para trabalhar aquilo que trouxe para a terapia? Se a resposta for frequentemente não, vale tentar compreender por quê.
Talvez seja uma questão simples de organização. Talvez aquele ambiente não ofereça privacidade. Talvez a modalidade realmente não esteja funcionando bem para aquela pessoa. O formato não precisa ser defendido depois de escolhido.
Existem situações em que a decisão não deveria depender apenas da preferência
Em muitos casos, online e presencial são alternativas possíveis e a escolha pode considerar rotina, conforto e preferência. Em outros, existem fatores clínicos ou contextuais que pesam mais. Uma pessoa pode estar vivendo uma situação em que é importante ter acesso rápido a uma rede presencial. Pode existir risco relevante à própria integridade ou à de outras pessoas, necessidade de articulação com outros serviços ou condições que tornam determinado tipo de acompanhamento difícil de realizar exclusivamente à distância.
Também existem situações muito menos graves em que um formato simplesmente oferece condições melhores para determinada demanda. Por isso, escolher modalidade não precisa ser uma decisão tomada isoladamente antes do primeiro contato. O próprio psicólogo pode avaliar com a pessoa se existem razões clínicas para recomendar uma configuração específica. Preferência importa, mas não é o único critério. Talvez não exista um “errado” definitivo nessa decisão.
Algumas pessoas começam online porque é a única modalidade compatível com a rotina naquele momento. Outras começam presencialmente porque sempre imaginaram terapia dessa maneira. Só depois de algumas sessões elas conseguem perceber o que funciona melhor. A modalidade pode ser revista.
Se houver possibilidade, uma pessoa que começou online pode experimentar sessões presenciais. Alguém que mudou de cidade ou teve alterações importantes na rotina pode passar do presencial para o remoto sem necessariamente interromper o processo.
Nem todo tratamento precisa alternar formatos, e nem todo profissional oferecerá as duas modalidades. A ideia importante é outra: a escolha inicial não precisa ser tratada como uma decisão sobre a qual nunca mais se pode conversar. Na psicoterapia, observar como o próprio tratamento está funcionando também faz parte do tratamento.
O que considerar ao escolher entre terapia online e presencial?
Em vez de uma lista de vantagens universais, algumas perguntas podem ajudar a aproximar a decisão das condições concretas de cada pessoa. Quanto tempo e esforço o deslocamento exigiria semanalmente? Existe em casa um lugar onde consigo conversar sem medo constante de ser ouvido?
Tenho uma conexão suficientemente estável?
Sair de casa para a sessão me ajudaria a criar um espaço separado da rotina ou tornaria a continuidade muito mais difícil? Pela tela, consigo manter atenção e me envolver na conversa? Existe alguma condição clínica ou situação de vida que torne importante ter uma rede presencial mais próxima? E, talvez mais importante: qual das opções eu consigo realmente sustentar? Não adianta escolher a modalidade que parece ideal em teoria se, na prática, ela transforma cada sessão numa operação difícil de encaixar na vida.
Online ou presencial: talvez a melhor escolha seja a que permite que a terapia aconteça bem
A psicoterapia presencial oferece uma separação física mais nítida da rotina, um ambiente já preparado para o encontro e uma interação sem mediação tecnológica. A terapia online pode reduzir barreiras de distância e deslocamento, facilitar continuidade e permitir acesso a profissionais que estariam fora do alcance geográfico. Essas diferenças são reais.
Mas elas não produzem uma hierarquia simples em que uma modalidade é sempre mais profunda, mais humana ou mais eficaz que a outra. A literatura disponível mostra que a psicoterapia por videoconferência pode alcançar resultados clínicos e relações terapêuticas comparáveis ao atendimento presencial em diferentes contextos. A escolha ganha mais sentido quando deixa de ser uma comparação abstrata e passa a considerar a vida concreta de quem fará terapia. Se o atendimento online oferece privacidade, continuidade e condições para participar de maneira presente, ele pode ser uma boa escolha.
Se o espaço físico do consultório, a separação da rotina ou outras características do encontro presencial favorecem o processo, isso também importa. E às vezes não é possível saber completamente antes de começar. Nesse caso, experimentar, observar e conversar sobre a experiência pode ser mais informativo do que tentar encontrar antecipadamente a modalidade perfeita.
Referências
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- Tarp, K., Bojesen, A. B., Mejldal, A., & Nielsen, A. S. (2017). Effectiveness of optional videoconferencing-based treatment of alcohol use disorders: Randomized controlled trial. Telemedicine and e-Health, 23(8), 689–696.